quinta-feira, 14 de março de 2019

Como o florescer das cerejeiras pode indicar mudanças climáticas.

O abrir de pétalas das flores da cerejeira Yoshino neste ano em Tidal Basin, Washington, D.C, nos Estados Unidos, parece não ter sido afetado pelo aquecimento global. No entanto, há anos essas árvores têm florescido precocemente, segundo o Serviço Nacional de Parques (NPS) de Washington. Isso pode significar que mudanças climáticas globais alteram a vida das plantas, o que tem efeitos para outras espécies do seu ecossistema.

Em 2019, o período de pico do fenômeno, que ocorre quando 70% das flores se abrem, foi previsto para o começo de abril. A data está dentro dos padrões históricos das últimas décadas, de acordo com o que foi anunciado pela entidade em cerimônia no Newseum de Washington, museu interativo dedicado ao jornalismo.
De acordo com Jeffrey Reinbold, superintendente da agência, a NPS determinou a projeção de data para o florescimento de acordo com uma análise de dados, que incluíam temperaturas e as previsões de tempo para o mês de março.
Mudanças de ano em ano 
Conforme o site da NPS, o tempo mais provável do florescimento deveria ser sempre na última semana de março ou primeira semana de abril. Temperaturas extraordinárias, muito quentes ou frias, podem causar a antecipação do fenômeno – que chegou a acontecer dia 15 de março em 1990 – ou, ainda, o atraso dele. Em 1958, por exemplo, as flores desabrocharam em 18 de abril. Já em 2018, isso aconteceu no no dia 25 de março; mas duas semanas antes da data, metade das flores morreu devido a um congelamento tardio.
Especialistas da NPS dizem que as condições locais de luz e calor são os fatores principais que determinam o tempo de florescimento em ecossistemas temperados, como é o caso da região de Washington. Apesar desse período variar ao longo dos anos devido às condições locais, as médias de longo prazo, que vão muito além das de um ano só, podem ser sinais do impacto de variações climáticas anormais sobre as árvores, uma vez que as temperaturas estão ficando mais quentes e o florescimento tem sido adiantado.
O Instituto Smithsoniano publicou uma pesquisa em 2001 demonstrando que o florescimento das cerejeiras se adiantou em sete dias de 1970 até 1999, como efeito das mudanças climáticas. Paul Peterson, um dos autores do estudo, disse que essa tendência é de longo prazo. “O clima está ficando mais quente. As plantas estão florescendo bem antes”, ele contou ao The Independent.
Peterson também acrescentou que, embora a média a longo prazo seja a mesma, o florescimento precoce não ocorre todo ano. É o caso de 2019, que teve temperaturas mais geladas em março. Essa condição, juntamente com o tempo chuvoso, pode prejudicar e postergar o fenômeno.
Em entrevista ao Eos, o cientista especialista em mudanças climáticas Patrick Gonzalez contou sobre uma pesquisa realizada por ele e sua equipe que determinou um aumento de 1,1°C por século (de 1895 a 2017) no memorial de Martin Luther King, localizado na enseada Tidal Basin, local onde há forte presença de cerejeiras. Essa mudança se deve às atividades humanas. “O padrão histórico cada vez mais adiantado de florescimento das cerejeiras em Washington está relacionado com mudanças climáticas causadas pelo homem, mas nenhuma pesquisa realmente examinou todos os fatores envolvidos”, contou.
Impactos maiores
Como apontado pelo cientista, as alterações no tempo de florescimento das cerejeiras podem ter repercussões desastrosas; outras espécies, como os agentes polinizadores, acabam sofrendo danos.
Ainda, o fenômeno pode estar ocorrendo em várias regiões do planeta. Gonzalez citou uma pesquisa que indica o precoce desabrochar de flores em Kyoto, no Japão, com uma base de dados de 1200 anos. Outro estudo, por sua vez, concluiu que o período de pico de florescimento em Tidal Basin “tem mais chances de ser acelerado” em uma média de 5 dias em 2050 e de 10 dias em 2080, em relação a padrões estabelecidos por um relatório de 2007 do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas.
O autor dessas previsões, Soo-Hyung Kim, contou ao Eos: “Se cenários futuros assim permanecerem padronizados, então as previsões ainda a serem feitas com base nesses cenários serão similares”. Sobre o fato das datas previstas para o florescimento em Tidal Basin estarem dentro da média em 2019, ele defendeu: “Não acho que um ano mostrando uma média represente uma tendência duradoura. Nós teremos que analisar a longo prazo”.
Nos EUA, em regiões de clima temperado, existem tendências de longo prazo nas quais há invernos mais quentes e calor logo no começo da primavera, segundo Theresa Crimmins,  assistente de direção da Base Nacional Americana de Fenologia de Tucson, no estado do Arizona. “As respostas das plantas é florescer antes, realizando suas atividades sazonais primaveris mais cedo”, ela explicou.
Crimmins também observa que nem todas as espécies florescem na mesma direção e ritmo, mas que as consequências óbvias de mudanças no tempo do florescimento seriam anormalidades nas atividades dos polinizadores.
“O florescimento das cerejeiras de Washington é um bom indicador de potenciais mudanças climáticas e impactos ecológicos em diversos outros lugares”, Gonzalez analisou. Para ele, as plantas são apenas um dos sinais de que o planeta pede socorro:  “O aumento da conscientização irá nos ajudar a nos engajarmos em uma solução para esse problema”.
Fonte: Revista Galileu

quarta-feira, 13 de março de 2019

A Noruega tem um esquema insanamente eficaz que recicla 97% das garrafas plásticas utilizadas no país.

Quando se trata de reciclagem de resíduos plásticos, a Noruega está à frente do mundo todo: a nação escandinava criou um esquema que a permite reciclar 97% de todas as suas garrafas plásticas, com menos de 1% acabando no meio ambiente.
Além disso, 92% das garrafas recicladas produzem material de alta qualidade e podem ser utilizadas novamente como embalagens de bebidas.
Em alguns casos, o sistema já reutilizou o mesmo material mais de 50 vezes.

Infinitum

Por meio de uma organização chamada Infinitum, a Noruega criou uma das formas mais eficientes e ambientalmente corretas de reciclar garrafas plásticas.
Essa é uma conquista notável, especialmente considerando que o resto do mundo vai na contramão: em todo o globo, 91% do plástico produzido não é reciclado e 8 milhões de toneladas acabam no oceano anualmente.
A título de comparação, os EUA possuem uma taxa de reciclagem de cerca de 30%, enquanto o Reino Unido tem uma entre 20 e 45%.
Então, o que a Noruega está fazendo diferente?

Recicle e ganhe

Para simplificar, a nação deu à reciclagem um valor que ela não tem na maioria dos lugares.
Hoje em dia, é geralmente mais barato criar plástico novo do que reciclar plástico velho. Sem um incentivo financeiro, empresas e consumidores não costumam se preocupar em fazer a coisa certa pelo meio ambiente.
O modelo da Noruega é baseado em um esquema de empréstimos: quando um consumidor compra uma garrafa de plástico, uma pequena taxa adicional equivalente a cerca de 13 a 30 centavos de dólar é cobrada.
Esta taxa pode então ser resgatada de várias maneiras. Os consumidores podem levar sua garrafa a uma “máquina de retorno automática”, que devolve dinheiro depois de escanear o código de barras da embalagem depositada. Também podem devolvê-la a várias pequenas lojas e postos de gasolina em troca de dinheiro ou crédito.
Os donos de lojas também recebem uma pequena taxa por cada garrafa que reciclam, e alguns argumentam que isso aumentou seus negócios.
“Queremos chegar ao ponto em que as pessoas percebam que estão comprando o produto, mas apenas tomando emprestada a embalagem”, disse Kjell Olav Maldum, diretor executivo da Infinitum, ao The Guardian.

Imposto

Ao mesmo tempo, o país também impôs uma taxa ambiental aos produtores de plástico, que pode ser reduzida com melhorias na reciclagem.
Se a reciclagem estiver acima de 95% em todo o país, então todos os produtores são isentos do imposto.
Embora essa possa soar como uma meta difícil de ser alcançada, já foi pelos últimos sete anos.

Mirem-se no exemplo da Noruega

Desde o advento deste esquema único, a Infinitum tem sido visitada por representantes de muitos países, incluindo a Escócia, Índia, China e Austrália, todos interessados em seguir o exemplo da nação.
A Alemanha e a Lituânia são alguns dos únicos países que podem competir com a Noruega, e ambos usam sistemas semelhantes.
No entanto, mesmo na Noruega, ainda há espaço para progresso. Este ano, a Infinitum estima que 150 mil garrafas não serão devolvidas e, se tivessem sido, teriam economizado energia suficiente para alimentar 5,6 mil residências no ano.
Quando posto nesses números, parece uma ótima razão para reciclar, não? [ScienceAlert]
Fonte: Hypescience

segunda-feira, 11 de março de 2019

Apicultores brasileiros encontram meio bilhão de abelhas mortas em três meses.

Albert Einstein previu no século passado que, se as abelhas desaparecessem da superfície da Terra, o homem teria apenas mais quatro anos de vida. A morte em grande escala desse animal, interpretada como apocalíptica na época, é hoje um alerta real. Desde o começo do século, casos de morte e sumiço de abelhas são registrados nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, estudiosos destacam episódios alarmantes a partir de 2005.

Agora, o fenômeno parece chegar ao ápice. Nos últimos três meses, mais de 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas por apicultores apenas em quatro estados brasileiros, segundo levantamento da Agência Pública e Repórter Brasil. Foram 400 milhões no Rio Grande do Sul, 7 milhões em São Paulo, 50 milhões em Santa Catarina e 45 milhões em Mato Grosso do Sul, segundo estimativas de Associações de apicultura, secretarias de Agricultura e pesquisas realizadas por universidades.

O principal causador, afirmam especialistas e pesquisas laboratoriais analisadas pela reportagem, é o contato com agrotóxicos à base de neonicotinoides e de Fipronil, produto proibido na Europa há mais de uma década. Esses ingredientes ativos são inseticidas, fatais para insetos, como é o caso da abelha, e quando aplicados por pulverização aérea se espalham pelo ambiente.
As abelhas são as principais polinizadores da maioria dos ecossistemas do planeta. Voando de flor em flor, elas polinizam e promovem a reprodução de diversas espécies de plantas. No Brasil, das 141 espécies de plantas cultivadas para alimentação humana e produção animal, cerca de 60% dependem em certo grau da polinização deste inseto. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo dependem das abelhas.
Em Cruz Alta, município de 60 mil habitantes no Rio Grande do Sul, mais de 20% de todas as colmeias foram perdidas apenas entre o Natal de 2018 e o começo de fevereiro. Cerca de 100 milhões de abelhas apareceram mortas, segundo a Apicultores de Cruz Alta (Apicruz). “Apareceram uns venenos muito bravos. Eles colocam de avião de manhã e à tarde as abelhas já começam a aparecer mortas”, relata o apicultor Salvador Gonçalves, presidente da Apicruz.
No Brasil, há seis espécies de abelhas nativas — Melipona scutellaris, Melipona quadrifasciata, Melipona fasciculata, Melipona rufiventris, Nannotrigona testaceicornis, Tetragonisca angustula – e mais de 3 mil estrangeiras. A maioria delas não tem ferrão, ou tem o órgão atrofiado.
Cada espécie é mais propícia para polinização de determinadas culturas. Por exemplo, a Mamangaba, conhecida popularmente como abelhão, é a principal responsável pela polinização de maracujá. “O que aconteceria se esse inseto fosse extinto? Ou deixaríamos de consumir essas frutas, ou elas ficariam caríssimas, porque o trabalho de polinização para produzi-la teria que ser feito manualmente pelo ser humano”, explica Carmem Pires, pesquisadora da Embrapa e doutora em Ecologia de Insetos.
A estudiosa conta que até em lavouras que não são dependentes da ação direta dos polinizadores, a presença de abelhas aumenta a safra. “Na de soja, por exemplo, é identificado um aumento em 18% da produção. É importante destacar também o efeito em cadeia. As plantas precisam das abelhas para formar suas sementes e frutos, que são alimento de diversas aves, que por sua vez são a dieta alimentar de outros animais. A morte de abelhas afeta toda a cadeia alimentar”.

Agrotóxicos inimigos das abelhas

Os principais inimigos das abelhas são os agrotóxicos neonicotinoides, uma classe de inseticidas derivados da nicotina, como por exemplo o Clotianidina, Imidacloprid e o Tiametoxam. A diferença para outros venenos é que ele tem a capacidade de se espalhar por todas as partes da planta. Por isso, costuma ser colocado na semente, e tudo acaba com vestígios: flores, ramos, raízes e até no néctar e pólen. Eles são usados em diversas culturas como de algodão, milho, soja, arroz e batata.
Além dos neonicotinoides, há casos de mortandade relacionados também ao uso de agrotóxicos à base de Fipronil, inseticida que age nas células nervosas dos insetos e, além de utilizado contra pragas em culturas como maçã, soja e girassol, é usado até mesmo em coleiras antipulgas de animais domésticos. Muitas vezes esse veneno é aplicado em pulverização aérea, o que o expõe diretamente às abelhas. Segundo pesquisa produzida pela Embrapa em 2004, 19% do agrotóxico manejado através do método de pulverização aérea é dispersado para áreas fora da região de aplicação.
Dentro da colmeia as abelhas vivem em sociedades organizadas, com papéis claros. Elas se dividem em castas — rainha, operárias e zangões. A primeira delas é a única fêmea fértil, é quem coloca os ovos —cerca de 2,5 mil por dia. Os zangões são os machos e têm como papel fecundar a rainha. Já as operárias são as fêmeas responsáveis por praticamente tudo dentro da colmeia: limpeza, coleta de néctar e pólen, alimentação das larvas (abelhas não adultas), elaboração do mel e defesa do lar. A depender do tamanho da caixa e das condições climáticas, uma única colmeia pode abrigar até 100 mil abelhas.
A morte dos polinizadores por contato com os agrotóxicos pode ocorrer de vários modos. O mais comum é quando a operária sai para a polinização. Muitas acabam morrendo na hora, outras ficam desorientadas e infectadas. A partir daquele momento elas tentam voltar a colmeia, mas muitas não resistem ao caminho. As que conseguem voltar acabam infectando toda colmeia — o enxame acaba morto em pouco mais de um dia.

Casos cada vez mais agudos

Não existem números oficiais de mortes de abelhas no país, segundo o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Porém, associações de apicultores e órgãos ligados à secretarias estaduais de Agricultura fazem levantamentos próprios.
Entre dezembro do ano passado e fevereiro de 2019, pelo menos 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas apenas nos estados de Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul, segundo apurou a reportagem. Mas o número pode ser muito maior, já que é impossível contabilizar as mortes de abelhas silvestres – aquelas que não são criadas por apicultores.
A maioria dos casos recentes ocorreu no Rio Grande do Sul, onde, segundo a Câmara Setorial de Apicultura da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural do estado, foram 400 milhões de baixas desde dezembro do ano passado. O estado é o maior produtor apícola do país, com mais de 400 mil colmeias, de acordo com a Emater. A produção de mel supera 6 mil toneladas por safra, cerca de 15% do total brasileiro.
A Secretaria recebeu comunicados de óbitos em 10 municípios: Jaguari, Sant’Ana do Livramento, Alegrete, Santiago, Livramento, Bagé, Mata, Cruz Alta, Boa Vista do Cadeado, Santa Margarida. Isso significou mais de 1% das criações de abelhas dizimadas. “O estado tem cerca de 463 mil colmeias. Dessas, cerca de 5 mil foram completamente perdidas. O prejuízo está em torno de 150 toneladas de mel”, conta Aldo Machado dos Santos, coordenador da Câmara Setorial de Apicultura gaúcha.
Por meio de notícias da imprensa, investigações do Ministério Público e estudos científicos, a reportagem identificou casos de mortandade de abelhas em pelo menos dez estados brasileiros desde 2005: Ceará, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
O engenheiro agrônomo e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Aroni Sattler é especialista em sanidade das abelhas e trabalha na área desde 1973. Segundo ele, casos de mortes de enxames se tornaram mais recorrentes na última década. “Devido ao meu trabalho, sempre recebi amostras de abelhas para análises, e vim percebendo que cada vez mais não havia sinais de doenças nos insetos que explicassem mortandades tão agudas”, explica.
No ano passado, ele foi procurado pelo Bioensaios, um laboratório privado, para orientar um trabalho sobre coleta de amostras em casos de mortandade. Foram analisados 30 casos de grandes baixas em enxames no Rio Grande do Sul. Os resultados mostram que cerca de 80% ingeriram ou tiveram contato com Fipronil antes de sucumbir. “Pelos sinais clínicos e pelo histórico apresentado pelos apicultores, percebemos que os agricultores da região misturavam o Fipronil no tanque junto com dessecantes desde o preparo do solo, passando pela fase vegetativa do cultivo e depois na hora da colheita. Se trata de um inseticida, e as abelhas são um tipo de inseto, por isso o ingrediente é bastante tóxico para elas”, detalha.
O especialista aponta que, mesmo naquelas que não apresentaram vestígio dos agrotóxicos, pode ter ocorrido contato. “Nos outros 20% é notado que a coleta das amostras não foi feita adequadamente, ou foi feita em um período muito longo após a mortandade, o que dificulta a identificação dos tóxicos”.

Quem é o culpado?

Desde que começou a fazer análises de abelhas mortas, o engenheiro agrônomo Aroni Sattler emitiu 30 laudos para apicultores do Rio Grande do Sul que comprovam o contato dos insetos com pesticidas. A partir daí eles podem levar os casos à Justiça e buscar ressarcimento. O especialista alerta para um risco ainda maior, o das abelhas nativas silvestres, pois não há como enumerar quantas estão morrendo e nem denunciar quem aplicou o veneno. “O impacto do uso desses agrotóxicos atinge um raio de 3 a 5 quilômetros das lavouras. Tudo no entorno desaparece”, afirma.
Aroni Sattler destaca também que muitas vezes os desastres ocorrem por falta de informação. “Há casos de mortandade que acontecem porque os agricultores utilizam o agrotóxico de modo errado, ou até mesmo, por falta de conhecimento, eles acham que a abelha prejudica a lavoura e passam veneno”.
O coordenador da Câmara Setorial de Apicultura do Rio Grande do Sul, Aldo Machado, afirma que há necessidade de um trabalho de conscientização: “Precisamos de agrônomos nos campos, acompanhando essas aplicações, vendo se está sendo feito conforme a bula”.
Sobre realizar as denúncias, ele explica que o canal indicado são as defensorias agrícolas ligadas às secretarias estaduais ou municipais. Além disso, é aconselhável informar a Polícia Militar Ambiental e fazer um boletim de ocorrência na Polícia Civil. “O apicultor tem que vencer o medo e denunciar. Há dois anos, após um grande surto de casos no Rio Grande do Sul, fizemos um levantamento e só existiam dois registros de denúncia. Sabíamos que estava ocorrendo mais, mas sem denúncia não se torna oficial para o Governo”. Só em Cruz Alta, segundo a Associação dos Apicultores de Cruz Alta (Apicruz), 810 colmeias foram totalmente perdidas entre 2015 e 2016 – cerca de 50 milhões de abelhas. Porém, no último trimestre a Apicruz estima que o número de abelhas mortas ultrapasse 100 milhões no município.
Mas, mesmo em casos onde há um laudo que prove a relação das mortes com agrotóxicos, é difícil conseguir identificar um culpado, afirma Aldo Machado. “Em Cruz Alta, por exemplo, há diversos produtores de soja. Existe a dificuldade de provar quem colocou esse princípio ativo na lavoura. Em muitos casos, diversos produtores utilizam o agrotóxico, aí fica difícil encontrar um culpado para cada caso específico”, pontua.
De acordo com a Lei Federal 7.802/89, a Lei dos Agrotóxicos, quem deve fazer a fiscalização do uso são os órgãos estaduais. Portanto, todo problema decorrente do uso desses químicos deve ser informado às secretarias de Meio ambiente ou de Agricultura dos estados.
Há base legal para considerar a morte de abelha como crime ambiental. De acordo com o artigo 56 da Lei de Crimes Ambientais é crime “Produzir, processar, embalar, importar, exportar, comercializar, fornecer, transportar, armazenar, guardar, ter em depósito ou usar produto ou substância tóxica, perigosa ou nociva à saúde humana ou ao meio ambiente, em desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou nos seus regulamentos”.
Porém, segundo o Ibama, há grande dificuldade para comprovar que a mortalidade se deu pelo uso em desacordo com as instruções autorizadas no registro. “Quando isso fica comprovado – uso onde não devia, na quantidade que não devia, na época que não devia, usando equipamento que não devia e causando a mortalidade – aí se enquadra no artigo e se trata de crime ambiental”, informa o Instituto, através da assessoria de imprensa.

Milhões de mortes também em São Paulo – e por agrotóxicos

Testes laboratoriais apontaram o contato com agrotóxico como causador da morte de abelhas também no estado de São Paulo, onde a produção de mel chega a 3,7 mil toneladas por safra – cerca de 10% do total nacional. Entre 2014 e 2017, uma pesquisa com a participação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) realizou um mapeamento sobre os fatores que contribuem para a perda de enxames. Em 78 cidades, os pesquisadores contabilizaram 107 produtores que sofreram com perdas de colmeias. Em três anos eles relataram que cerca de 255 milhões de abelhas morreram.
O professor e pesquisador da Unesp Rio Claro Osmar Malaspina, um dos responsáveis pelo trabalho, diz que os casos em São Paulo vêm acontecendo desde 2005. “Eles se acentuam a partir de 2012, e até aquele momento os apicultores não sabiam como, mas todas as abelhas passavam a morrer do nada e em menos de 24 horas. A grande suspeita era de agrotóxicos, mas até aquele momento não tínhamos uma análise para provar isso”.
O projeto começou em 2013 com patrocínio de empresas produtoras de agrotóxicos. Batizado de Colmeia Viva, o projeto recebeu um telefone 0800 para denúncias. Quando uma abelha morria, o apicultor ligava e fazia a queixa. “Após a análise, entregamos um laudo para cada criador, que era público. E ele poderia usá-lo para entrar com ação na Justiça”, explica.
O relatório do mapeamento foi lançado no ano passado com conclusões voltadas para a criação de um plano de ação nacional para boas práticas de aplicações de agrotóxicos. O objetivo é manter uma relação produtiva entre a agricultura e a apicultura, sem que nenhuma das duas áreas saia enfraquecida.
A iniciativa contou com 222 atendimentos voltados a apicultores, das quais 107 originaram visitas ao campo. Em 88 ocorreram coletas de abelhas para análise focada na relação com a aplicação de agrotóxicos. Em 59 casos – cerca de 67% – o resultado foi positivo para resíduos de pesticidas. Em 27 casos, a hipótese é que a aplicação de tóxico tenha sido feita fora da lavoura onde a colmeia fica, e em 21 casos a suspeita é de uso incorreto dentro da própria residência (11 destes foram causados por produtos à base de neonicotinoides e 10 à base de Fipronil).
O grupo também fez um trabalho educativo com agricultores, ensinando modos de aplicação de pesticidas que diminuam o impacto em abelhas. “Nos últimos meses estamos percebendo uma queda nas ocorrências de mortandade, mas ainda temos que esperar mais alguns anos para fazer um novo estudo que confirme isso e nos mostre os motivos”, explica. Nos últimos dois meses as baixas em colmeias foram reduzidas para cerca de 25.

Reavaliação de agrotóxicos

Em decorrência dos casos de mortandade de abelhas, o Ibama deu início em 2012 à reavaliação de diversos ingredientes químicos usados em plantações. O primeiro está sendo o neonicotinoides Imidacloprid, o mais usado do grupo. Empresas declararam ao Ibama a comercialização de 1.934 toneladas de Imidacloprido só em 2010. Simultaneamente, o Instituto está reavaliando também os neonicotinoides Clotianidina e o Tiametoxam, e ao fim dos três processos iniciará os testes com o Fipronil.
Em 19 de julho de 2012 o Ibama chegou a proibir a pulverização aérea do ingrediente ativo Imidacloprid. O órgão determinou também que todos os produtos deveriam conter nas embalagens o seguinte aviso: “Este produto é tóxico para abelhas. A aplicação aérea NÃO É PERMITIDA. Não aplique este produto em época de floração, nem imediatamente antes do florescimento ou quando for observada visitação de abelhas na cultura. O descumprimento dessas determinações constitui crime ambiental, sujeito a penalidades”. Porém, o Ministério da Agricultura alegou que a aplicação aérea do Imidacloprid era imprescindível para determinadas culturas. Com isso, três meses depois, ficou autorizada a pulverização para culturas de arroz, cana-de-açúcar, soja, trigo e algodão.
Tendo em vista que os agrotóxicos mais nocivos às abelhas estão sendo reavaliados, passando agora pela Avaliação de Risco, o Ibama criou em 2015 um Grupo Técnico de Trabalho para discutir os procedimentos a serem adotados para proteger especificamente as abelhas. O grupo se reúne bimestralmente e conta com 13 participantes vindos do setor acadêmico, da Embrapa, da Indústria e também do Ministério do Meio Ambiente. Sua missão é propor uma avaliação obrigatória de risco de agrotóxicos para abelhas. Porém, não há previsão de quando isso ocorrerá.

Ministério Público Federal cobra respostas

Há procedimentos em curso sobre a morte de abelhas em cinco procuradorias estaduais, no Distrito Federal, Goiás, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, segundo a Procuradoria-Geral da República. A Agência Pública teve acesso a documentos relativos a dois desses casos.
No Rio Grande do Sul, há uma ação civil pública tramitando na 9ª Vara Federal de Porto Alegre. A ação foi ajuizada em outubro de 2017 contra o Ibama, para obrigar a autarquia a concluir no prazo de seis meses o processo de reavaliação da substância Imidacloprid.
Porém, o Ibama afirma que terá dificuldade de concluir o processo administrativo nesse prazo. Segundo um memorando, o órgão está construindo diversos protocolos de testes, por se tratar de avaliações ainda inéditas no país. A equipe que realiza as reavaliações é composta por apenas cinco analistas ambientais: três biólogos, um químico e um zootecnista.
Em Mato Grosso do Sul, a Associação de Produtores de Mel de Dourados entrou com uma representação protocolada em março de 2018 pedindo investigação do MPF/MS. Na justificativa, a associação afirma que os apicultores estão perdendo sua renda e produção por causa das mortes de abelhas “pelo uso indiscriminado e abusivo de agrotóxico nas lavouras de cana de açúcar, soja, milho, arroz e outras culturas agrícolas”.
A representação deu origem a uma Notícia de Fato, uma demanda encaminhada aos órgãos para investigação, e agora o MPF de Mato Grosso do Sul avalia se vai instaurar ou não um procedimento próprio.
Leis para reduzir pesticidas e salvar as abelhas
20 de maio é o Dia Mundial das Abelhas, data criada para lembrar a importância desses insetos para a produção de alimentos em escala global. Elas não são as únicas agentes polinizadoras — pássaros, morcegos, esquilos, besouros e diversos outros contribuem para a reprodução das plantas – mas o grande número e espécies de abelhas as colocam no papel principal.
Para defendê-las, a FAO/ONU, em parceria com a Organização Mundial de Saúde (OMS), elaborou o Código Internacional de Conduta para o Manejo de Pesticidas. A organização destaca, entretanto, que sem a diminuição do uso de agrotóxicos as abelhas continuarão em risco. “Não podemos continuar nos concentrando em aumentar a produção e a produtividade com base no uso generalizado de pesticidas e produtos químicos que ameaçam os cultivos e os polinizadores”, alertou o diretor-geral da agência da ONU, José Graziano da Silva.
A passos lentos, alguns países vão adotando leis para salvar os zangões, rainhas e operárias. O Fipronil já é proibido em toda a União Europeia há mais de uma década. Em 2004, ele foi banido da França após ações que denunciavam o impacto do veneno — naquele ano, cerca de 40% dos insetos criados nos apiários franceses foram encontrados mortos. Os neonicotinoides entraram em discussão logo depois. Em 2013 tiveram os registros congelados por dois anos, e em 2018 veio o banimento permanente.
Até os Estados Unidos caminham na mesma direção. Em 2013, um relatório do Departamento de Agricultura americano (USDA) mostrou que quase um terço das abelhas de colônias do país morreram durante o inverno de 2012/2013. No ano seguinte, o então presidente americano Barack Obama proibiu o uso de neonicotinoides em áreas de vida selvagem.
Fonte:  Pedro Grigori, Agência Pública/Repórter Brasil | Infográficos: Bruno Fonseca

sexta-feira, 8 de março de 2019

Brasil é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo.

No ranking dos maiores poluidores do planeta, o Brasil aparece em quarto lugar quanto à produção de lixo plástico. Por ano, o país gera 11,3 milhões de toneladas desse resíduo – número três vezes maior que sua produção anual de café, por exemplo.

No ranking dos maiores produtores de lixo plástico, o Brasil é precedido apenas por Estados Unidos (70,8 milhões de toneladas), China (54,7 milhões) e Índia (19,3 milhões). Na Europa Ocidental, a liderança é da Alemanha (8,2 milhões).
Os dados fazem parte do relatório internacional Global Plastics Report, levantamento do WWF divulgado nesta terça-feira (05/03), que aborda o impacto do plástico no meio ambiente, na economia e na sociedade. Para o estudo, a organização foi além dos números da geração desse tipo de lixo nas residências.
“Esse trabalho foi feito com base nas premissas do Banco Mundial, que engloba também os resíduos plásticos industriais, da construção civil, lixo eletrônico e agrícolas”, detalha Gabriela Yamaguchi, do WWF Brasil.
Segundo o relatório, o brasileiro produz um quilo de lixo plástico por semana – uma das maiores médias mundiais.
“É uma produção alta porque, assim como China, Índia, Indonésia, o Brasil é um país de dimensões continentais, com uma sociedade de consumo em ascensão, onde também há um certo crescimento da infraestrutura”, analisa Yamaguchi.
Fabricado para ser usado apenas uma vez na grande maioria dos casos, o plástico é em grande parte descartado na natureza e acaba chegando aos oceanos. Estima-se que 10 milhões de toneladas vão parar nos mares a cada ano – o que equivale a 417 mil contêineres com capacidade máxima.
Além de matar e contaminar animais marinhos, pequenos fragmentos do material, os chamados microplásticos, já são encontrados até em humanos. Um estudo científico divulgado no fim de 2018 estimou que até 50% da população mundial tenha microplásticos no intestino, incorporado por meio da ingestão de alimentos e água.
Uso e reciclagem
Embora esteja entre os maiores poluidores, o Brasil ainda está abaixo da média mundial de reciclagem. O relatório calcula que o país recicla apenas 1,28% do total de plástico produzido no país  – índice inferior aos à média global de 9%.
Entre os diferentes tipos de material, o PET é o que se sai melhor: cerca de 60% do que é produzido é reciclado, sendo transformado em fios para a indústria têxtil, por exemplo.
“Os números gerais ainda são tímidos. Não avançamos muito na implantação da coleta seletiva, dos programas de inserção de catadores, de acordos setoriais”, avalia Sylmara Gonçalves Dias, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP).
Quase dez anos depois da criação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, o Brasil está aquém do que era esperado no combate ao lixo plástico, pontua Dias.
“As fontes de poluição são múltiplas. Não adianta nada restringir um tipo de uso e achar que está fazendo alguma coisa”, diz, fazendo referência a leis recentes que banem canudos de plástico, por exemplo.
“É uma enganação que só mascara a complexidade do problema. É preciso olhar para tudo: copo, fralda descartável, sacolinha, garrafas, partes plásticas de produtos maiores.”
Antes do consumo
Na avaliação de Yamaguchi, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, lei de 2010, é positiva, mas insuficiente. “O Brasil e o mundo têm um déficit legal em que a responsabilização pela coleta e o tratamento do resíduo não estão bem definidos para quem produz esses materiais”, afirma.
A representante do WWF defende uma mudança de paradigma e leis mais rígidas. “Não é suficiente cuidar só do pós-consumo, da reciclagem. É preciso reduzir a produção de plástico no planeta, substituir por outros materiais, inovar.”
Mesmo que toda a geração desse material fosse interrompida de imediato, o volume já despejado na natureza levaria centenas de anos para ser degradado. “Estamos nos afogando com tanto lixo. O plástico é um barato que saiu caro: o valor dele não condiz com o impacto que causa em todos nós”, afirma Yamaguchi.
Na próxima semana, a assembleia do Programa das Nações Unidas para Meio Ambiente (PNUMA) discute em Nairóbi, no Quênia, um acordo global para banir plásticos e microplásticos dos oceanos.
Para o WWF, seria um primeiro passo para responsabilizar produtores de plástico no que diz respeito aos custos de tratamento e coleta dos resíduos.
Fonte: Deutsche Welle

terça-feira, 5 de março de 2019

Sistema online impulsiona gestão de dados sobre biodiversidade no Brasil.

O Brasil está no topo da lista dos 18 países mais diversos do mundo. Abriga entre 15% e 20% da diversidade biológica global, com mais de 120 mil espécies de invertebrados, cerca de 9 mil vertebrados e mais de 4 mil espécies de plantas. Com isso, surge um enorme potencial para impulsionar o crescimento econômico e a inclusão social, mas também uma enorme responsabilidade.

Com o apoio da ONU Meio Ambiente e do Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), uma iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações tem trabalhado para criar uma ferramenta abrangente para compilar dados e informações sobre a biodiversidade nacional.

O Brasil está no topo da lista dos 18 países mais diversos do mundo. Abriga entre 15% e 20% da diversidade biológica global, com mais de 120 mil espécies de invertebrados, cerca de 9 mil vertebrados e mais de 4 mil espécies de plantas. Com isso, surge um enorme potencial para impulsionar o crescimento econômico e a inclusão social, mas também uma enorme responsabilidade.
O uso sustentável de recursos naturais é fundamental para as gerações presentes e futuras do país. Mas para fazer isso enquanto monitora a perda de biodiversidade e os esforços de conservação, é crucial primeiramente entender os recursos brasileiros.
Com uma média de 700 novas espécies de animais descobertas todos os anos no Brasil, armazenar todas as informações de maneira utilizável é um enorme desafio, especialmente considerando o vasto tamanho do país e o número de diferentes instituições envolvidas na pesquisa da biodiversidade.
“Quando a informação está espalhada em diferentes instituições, é mais difícil encontrá-la, julgar a qualidade dos dados e entender como ela pode ser usada. Além disso, o tempo necessário para compilar os dados pode tornar seu uso ineficiente, como é o caso das políticas públicas”, explicou Andréa Nunes, coordenadora geral de biomas do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e diretora nacional do Projeto Sistema de Informação sobre Biodiversidade.
Nunes destacou, por exemplo, o caso do mapa de áreas prioritárias para conservação, uso sustentável e repartição de benefícios da biodiversidade, uma ferramenta de política pública para apoiar os processos participativos de tomada de decisão, como a criação de áreas protegidas. “O desenvolvimento deste mapa pode levar dois anos, por isso, ele só é atualizado a cada quatro ou cinco anos, o que é muito tempo quando pensamos em termos de dinâmica do território e mudanças no uso da terra”.
Mas, com o apoio da ONU Meio Ambiente e do Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), uma iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações tem trabalhado para mudar esse cenário, criando uma ferramenta mais abrangente sobre a biodiversidade nacional.
O Sistema Brasileiro de Informação sobre Biodiversidade reúne atualmente dados e informações de mais de 230 instituições, de universidades a centros de pesquisa, museus, órgãos estaduais, jardins botânicos e zoológicos.
Operacional desde novembro de 2014, o sistema visa apoiar a ciência, a política pública e a tomada de decisões relacionadas à conservação ambiental e ao uso sustentável dos recursos naturais. Isso é alcançado incentivando e facilitando a digitalização e a publicação online, integrando dados e informações de acesso aberto sobre a biodiversidade brasileira.
Para os pesquisadores, o sistema é um ativo inestimável. Por exemplo, um cientista pesquisando uma espécie em extinção — como o lobo-guará — pode agora encontrar informações abrangentes sobre a espécie, bem como divulgar seu próprio trabalho para um público mais amplo de colegas pesquisadores em todo o mundo.
Mas o sistema também tem outros usos práticos. Os agricultores podem usar a plataforma para ajudar a calcular os créditos de compensação ambiental ou para decidir sobre quais espécies devem priorizar os esforços de restauração — como a flora em extinção, ou plantas que fornecem abrigo e alimento para espécies ameaçadas da vida selvagem na região. Finalmente, qualquer usuário pode contribuir com o sistema enviando fotografias, documentação e informações sobre a biodiversidade por meio do programa Ciência Cidadã.
“A implementação do Sistema Brasileiro de Informação sobre Biodiversidade é um passo importante para a disseminação de dados biológicos no país, tanto para pesquisa acadêmica quanto para a gestão ambiental”, afirmou Denise Hamú, representante da ONU Meio Ambiente no Brasil. “Estamos convencidos de que o sistema é cada vez mais relevante para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira e a conservação da natureza.”
O banco de dados do sistema já conta com mais de 15 milhões de registros sobre a ocorrência de espécies brasileiras publicadas pelas principais instituições de pesquisa do país, como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro e o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), além de dados obtidos em parcerias com herbários na Europa e nos Estados Unidos.
Parte dessa informação apoiou a criação de uma ferramenta chamada Biodiversidade e Nutrição, que fornece um banco de dados sobre a composição nutricional de espécies brasileiras nativas e ingredientes relacionados a receitas.
Em novembro de 2018, o Sistema Brasileiro de Informação sobre Biodiversidade foi convertido de um projeto do GEF para um banco de dados do governo brasileiro, tornando-se a referência oficial do Relatório Nacional Brasileiro à Convenção sobre Diversidade Biológica e para medir as conquistas das Metas de Aichi pela biodiversidade.
O Sistema Brasileiro de Informação sobre Biodiversidade também atua como o nó nacional da Global Biodiversity Information Facility, uma rede internacional e infraestrutura de pesquisa que oferece acesso livre e aberto a dados sobre biodiversidade de mais de 1,3 mil instituições em todo o mundo. Ao publicar seus dados no Sistema Brasileiro de Informação sobre Biodiversidade, os pesquisadores também decidem se os dados devem ser disponibilizados na rede global.
Nos próximos meses, o sistema continuará expandindo seu banco de dados, completará a migração para uma nova plataforma, melhorará o modo como utiliza dados e fortalecerá a nova governança estabelecida no ano passado por lei.
Fonte: ONU

sábado, 2 de março de 2019

Sistema online impulsiona gestão de dados sobre biodiversidade no Brasil.

O Brasil está no topo da lista dos 18 países mais diversos do mundo. Abriga entre 15% e 20% da diversidade biológica global, com mais de 120 mil espécies de invertebrados, cerca de 9 mil vertebrados e mais de 4 mil espécies de plantas. Com isso, surge um enorme potencial para impulsionar o crescimento econômico e a inclusão social, mas também uma enorme responsabilidade.

Com o apoio da ONU Meio Ambiente e do Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), uma iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações tem trabalhado para criar uma ferramenta abrangente para compilar dados e informações sobre a biodiversidade nacional.

O Brasil está no topo da lista dos 18 países mais diversos do mundo. Abriga entre 15% e 20% da diversidade biológica global, com mais de 120 mil espécies de invertebrados, cerca de 9 mil vertebrados e mais de 4 mil espécies de plantas. Com isso, surge um enorme potencial para impulsionar o crescimento econômico e a inclusão social, mas também uma enorme responsabilidade.
O uso sustentável de recursos naturais é fundamental para as gerações presentes e futuras do país. Mas para fazer isso enquanto monitora a perda de biodiversidade e os esforços de conservação, é crucial primeiramente entender os recursos brasileiros.
Com uma média de 700 novas espécies de animais descobertas todos os anos no Brasil, armazenar todas as informações de maneira utilizável é um enorme desafio, especialmente considerando o vasto tamanho do país e o número de diferentes instituições envolvidas na pesquisa da biodiversidade.
“Quando a informação está espalhada em diferentes instituições, é mais difícil encontrá-la, julgar a qualidade dos dados e entender como ela pode ser usada. Além disso, o tempo necessário para compilar os dados pode tornar seu uso ineficiente, como é o caso das políticas públicas”, explicou Andréa Nunes, coordenadora geral de biomas do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações e diretora nacional do Projeto Sistema de Informação sobre Biodiversidade.
Nunes destacou, por exemplo, o caso do mapa de áreas prioritárias para conservação, uso sustentável e repartição de benefícios da biodiversidade, uma ferramenta de política pública para apoiar os processos participativos de tomada de decisão, como a criação de áreas protegidas. “O desenvolvimento deste mapa pode levar dois anos, por isso, ele só é atualizado a cada quatro ou cinco anos, o que é muito tempo quando pensamos em termos de dinâmica do território e mudanças no uso da terra”.
Mas, com o apoio da ONU Meio Ambiente e do Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês), uma iniciativa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações tem trabalhado para mudar esse cenário, criando uma ferramenta mais abrangente sobre a biodiversidade nacional.
O Sistema Brasileiro de Informação sobre Biodiversidade reúne atualmente dados e informações de mais de 230 instituições, de universidades a centros de pesquisa, museus, órgãos estaduais, jardins botânicos e zoológicos.
Operacional desde novembro de 2014, o sistema visa apoiar a ciência, a política pública e a tomada de decisões relacionadas à conservação ambiental e ao uso sustentável dos recursos naturais. Isso é alcançado incentivando e facilitando a digitalização e a publicação online, integrando dados e informações de acesso aberto sobre a biodiversidade brasileira.
Para os pesquisadores, o sistema é um ativo inestimável. Por exemplo, um cientista pesquisando uma espécie em extinção — como o lobo-guará — pode agora encontrar informações abrangentes sobre a espécie, bem como divulgar seu próprio trabalho para um público mais amplo de colegas pesquisadores em todo o mundo.
Mas o sistema também tem outros usos práticos. Os agricultores podem usar a plataforma para ajudar a calcular os créditos de compensação ambiental ou para decidir sobre quais espécies devem priorizar os esforços de restauração — como a flora em extinção, ou plantas que fornecem abrigo e alimento para espécies ameaçadas da vida selvagem na região. Finalmente, qualquer usuário pode contribuir com o sistema enviando fotografias, documentação e informações sobre a biodiversidade por meio do programa Ciência Cidadã.
“A implementação do Sistema Brasileiro de Informação sobre Biodiversidade é um passo importante para a disseminação de dados biológicos no país, tanto para pesquisa acadêmica quanto para a gestão ambiental”, afirmou Denise Hamú, representante da ONU Meio Ambiente no Brasil. “Estamos convencidos de que o sistema é cada vez mais relevante para ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira e a conservação da natureza.”
O banco de dados do sistema já conta com mais de 15 milhões de registros sobre a ocorrência de espécies brasileiras publicadas pelas principais instituições de pesquisa do país, como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro e o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), além de dados obtidos em parcerias com herbários na Europa e nos Estados Unidos.
Parte dessa informação apoiou a criação de uma ferramenta chamada Biodiversidade e Nutrição, que fornece um banco de dados sobre a composição nutricional de espécies brasileiras nativas e ingredientes relacionados a receitas.
Em novembro de 2018, o Sistema Brasileiro de Informação sobre Biodiversidade foi convertido de um projeto do GEF para um banco de dados do governo brasileiro, tornando-se a referência oficial do Relatório Nacional Brasileiro à Convenção sobre Diversidade Biológica e para medir as conquistas das Metas de Aichi pela biodiversidade.
O Sistema Brasileiro de Informação sobre Biodiversidade também atua como o nó nacional da Global Biodiversity Information Facility, uma rede internacional e infraestrutura de pesquisa que oferece acesso livre e aberto a dados sobre biodiversidade de mais de 1,3 mil instituições em todo o mundo. Ao publicar seus dados no Sistema Brasileiro de Informação sobre Biodiversidade, os pesquisadores também decidem se os dados devem ser disponibilizados na rede global.
Nos próximos meses, o sistema continuará expandindo seu banco de dados, completará a migração para uma nova plataforma, melhorará o modo como utiliza dados e fortalecerá a nova governança estabelecida no ano passado por lei.
Fonte: ONU