quarta-feira, 18 de março de 2020

Filmagens raras mostram uma cachalote-anão soltando uma tinta para fugir do ataque de uma foca

As imagens abaixo são muito raras: elas mostram uma baleia pouquíssimo avistada, a cachalote-anã (Kogia sima), em águas raras liberando uma tinta escura para tentar fugir de um ataque agressivo de uma foca.
O vídeo foi feito na Cidade do Cabo, na África do Sul. Essas baleias, do tamanho de golfinhos, normalmente habitam águas profundas.
Logo, sua presença ali provavelmente já sinalizava problemas.

A tinta

As cachalotes-anãs são animais tímidos que passam pouquíssimo tempo na superfície, além de nunca se aproximarem de barcos. Como resultado, os cientistas conhecem muito pouco sobre elas.
Modelo de museu de uma cachalote-anã
Eles já sabiam, no entanto, que esses animais eram capazes de utilizar a tática da tinta, parecida com a defesa de lulas, para escapar de predadores.
Se cachalotes-anãs se sentem ameaçadas, podem liberar mais de 11 litros de um líquido marrom escuro a partir de seu intestino.
“Esse comportamento de ‘tinta’ já foi documentado antes, mas foi observado muito raramente, e provavelmente nunca foi visto e gravado em águas rasas como essas”, explicou a especialista em cetáceos Karlina Merkens, da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, ao portal ScienceAlert.

Final trágico

Infelizmente, o incidente não terminou bem para a baleia. De acordo com veículos de informação locais, a cachalote-anão estava muito ferida e fraca quando autoridades chegaram para tentar ajudá-la.
Segundo Merkens, a ecolocalização do animal provavelmente lhe atrapalhou em águas rasas. Os ecos saindo dos diversos objetos no porto podem ter confundido a baleia, que provavelmente nunca havia estado em um ambiente parecido.
“Acrescente aquele ambiente ‘barulhento’ a ser atacado por um animal agressivo de aproximadamente o mesmo tamanho que o seu e também a possibilidade de uma doença que a levou a ficar em águas rasas, e é muito razoável supor que esse animal estava altamente estressado e desorientado por simplesmente não poder navegar com segurança nessas circunstâncias”, esclareceu.
Uma pena. [ScienceAlert]
Fonte: Hypescience

Pinguins passeiam por um aquário fechado para a visitação durante quarentena em Chicago

Muitas empresas e instituições ao redor do mundo estão fechando suas portas em uma quarentena destinada a conter o espalhamento do coronavírus (COVID-19).
Não foi diferente com o Shedd Aquarium, um aquário localizado na cidade americana de Chicago.
Na última sexta-feira, o governador do estado de Illinois J. B. Pritzker e a prefeita de Chicago Lori Lightfoot anunciaram uma proibição de quaisquer aglomerações públicas com mais de 1.000 pessoas. Por essa razão, muitos locais tiveram que encerrar temporiamente suas visitações, a fim de reduzir a propagação do vírus.
Como parte dessa medida, o Shedd Aquarium, que recebe cerca de dois milhões de turistas por ano, cancelou suas atividades por duas semanas.
Aproveitando o ambiente vazio, no entanto, os funcionários do aquário decidiram que era hora de os pinguins aproveitarem o local um pouquinho.

Tour dos pinguins

Alguns dos lugares que precisaram fechar suas portas para visitantes estão tentando se engajar com as pessoas por meio das mídias sociais. Por exemplo, diversos museus estão disponibilizando tours digitais.
O Shedd Aquarium, por sua vez, está postando atualizações sobre seus animais em redes sociais como o Twitter. Recentemente, eles compartilharam uma série de vídeos que mostram seus pinguins passeando por todo o aquário, provavelmente pela primeira vez na história.
“Embora esse seja um momento estranho para nós, parece normal para os animais em Shedd. Nossos cuidadores estão constantemente fornecendo novas experiências para os animais explorarem e expressarem seus comportamentos naturais”, escreveu o aquário no Twitter.
Não preciso nem dizer que todo mundo está amando assistir aos pinguins vagando pelas diversas salas do aquário, pedindo informações e observando os peixes com curiosidade. Uma graça! [BoredPanda]
Fonte: Hypescience

Cobras podem ser a origem do novo coronavirus altamente infeccioso da China.

Até esta sexta-feira , mais de 830 pessoas espalhadas por pelo menos seis países já tiveram confirmação de infecção pelo novo coronavírus de Wuhan (região central da China). Destas, 26 pessoas morreram e 13 cidades chinesas que somam 30 milhões de habitantes estão fechadas para transportes coletivos como trens, barcos e aviões.
Como os primeiros infectados em dezembro de 2019 foram trabalhadores e clientes do mercado de frutos do mar de Huanan, muitos suspeitaram que o novo vírus veio de alguma carne ou animal vivo vendido ali. A questão é que, ao contrário do que o nome indica, o mercado não tem a circulação apenas de animais marinhos, mas também de animais selvagens como castores, raposas, texugos, cobras e porcos-espinhos. Enquanto alguns alguns animais eram comercializados vivos, outros eram mortos e limpos por ali mesmo. 
Esse tipo de mercado é conhecido como “mercado molhado” porque há um fluxo de água constante no chão para empurrar sangue, fezes e urina desses animais para os ralos. Essa sopa de fluídos corporais animais é o ambiente perfeito para a proliferação de vírus e bactérias. Desde o início do surto, o mercado foi desinfectado e fechado. 
Usando amostras dos vírus isolados de pacientes, cientistas da China conseguiram determinar o código genético e registraram imagens dele no microscópio. Este vírus pertence à mesma família que a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-CoV) e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS-CoV). A Organização Mundial da Saúde nomeou o novo coronavírus de 2019-nCoV. 
Os coronavírus têm este nome por causa do formato quando visto no microscópio, que lembra uma coroa. Eles são transmitidos pelo ar e geralmente afetam o sistema respiratório superior de mamíferos e aves. A grande maioria dos coronavírus causa sintomas parecidos com o da gripe, mas o SARS e MERS infectam tanto as vias aéreas superiores quanto as inferiores, portanto são mais graves. 
O 2019-nCoV causa sintomas parecidos com o SARS e MERS, e as pessoas infectadas sofrem uma resposta inflamatória severa. Não há vacina ou tratamento antiviral disponível contra o 2019-nCoV, mas compreender melhor o ciclo de vida do vírus vai ajudar na prevenção da doença. 

Morcegos, camelos, gatos de algália e cobras

Assim como o SARS e MERS, o 2019-nCoV é uma doença com origem em animais, sendo que o primeiro paciente foi infectado pelo contato direto com o animal, e depois infectou diretamente outros humanos. Isso acontece porque o vírus passou por uma mutação genética no animal que permitiu que ele se multiplicasse em humanos. 
No caso do SARS e MERS, acredita-se que a origem do vírus foi o morcego, mas que ele infectou gatos da algália e camelos, respectivamente, que por sua vez contaminaram humanos. Nesses casos, provavelmente não houve consumo desses animais, mas contato direto com humanos. 
Agora, é possível que a origem do novo vírus também seja o morcego, mas que o contato com a cobra chinesa ou a krait chinesa tenha servido de ponte para a passagem do vírus para os humanos. Isso, porque as cobras em ambiente selvagem caçam morcegos. O que ainda não se sabe é como o vírus poderia ter se adaptado tanto a hospedeiros de sangue frio quanto de sangue quente. 
Para confirmar esta hipótese, seria necessário coletar o RNA das cobras vendidas no mercado chinês, mas elas já foram eliminadas há algumas semanas. Mesmo assim, o relatório recém-publicado traz informações valiosas para a criação de protocolos de tratamento e prevenção da doença. [The Conversation]
Fonte: Hypescience

segunda-feira, 16 de março de 2020

Óleo de andiroba é alternativa de renda para comunidades ribeirinhas na Amazônia

Semente de andiroba é retirada de árvores altas, de copas pequenas que estão presentes na América do Sul, Central e no Caribe e é usado de diversas maneiras no Amazonas. — Foto: Divulgação/Instituto Mamirauá
Semente de andiroba é retirada de árvores altas, de copas pequenas que estão presentes na América do Sul, Central e no Caribe e é usado de diversas maneiras no Amazonas. — Foto: Divulgação/Instituto Mamirauá
A semente de andiroba (Carapa guianensis) vem de árvores altas, de copas pequenas que estão presentes na América do Sul, Central e no Caribe. O óleo de anbdiroba é conhecido por sua utilização contra dores de garganta, cicatrização de ferimentos e como repelente de insetos, entre outras propriedades medicinais comprovadas cientificamente pela medicina.
Segundo o Instituto Mamirauá, mais do que para consumo interno, entretanto, o óleo de andiroba se apresentou como uma alternativa de renda para centenas de ribeirinhos que vivem no Amazonas, que tradicionalmente já extraiam o óleo da andirobeira.
“Esse óleo cura tudo”, afirma dona Maria, ribeirinha. O produto também é utilizado pelas artesãs da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã na confecção dos teçumes, para embelezar os produtos e torná-los duradouros.
Nas indústrias, é usado como matéria-prima de produtos medicinais como unguentos, pomadas e repelentes, inclusive prescritos por médicos, e também é utilizado para produzir cosméticos como shampoo, sabonete e hidratante corporal.
No Amazonas, a importância cultural do óleo motivou o governo do estado a proibir o corte da andirobeira em 2005. Ainda não existe, entretanto, uma legislação voltada para a coleta e o transporte dos recursos não madeireiros da árvore, como as sementes, de acordo com o Instituto.
A Lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012 determina que a coleta de produtos florestais não madeireiro da andirobeira é livre, sendo importante identificar os períodos ideais para coleta e atentar para a quantidade coletada, a fim de evitar danos ao desenvolvimento e à reprodução da espécie.
Com esta preocupação, um manejo sustentável para extração dos recursos da espécie é feita pelo Instituto Mamirauá, no Amazonas.

Monitoramento de extração

Desde 2014, o Instituto Mamirauá busca melhorar a qualidade da produção do óleo de andiroba em unidades de conservação do interior do Amazonas. O Programa de Manejo Florestal Comunitário (PMFC) do Instituto Mamirauá executou uma série de ações para viabilizar o manejo do recurso.
Primeiro, foi realizado um levantamento sobre o conhecimento tradicional local. Entrevistas foram feitas em comunidades que possuíam andirobais, à procura de quem soubesse a forma tradicional de extração e pudesse ter interesse em melhorias na produção do óleo.
“Identificamos as comunidades que tinham andirobais. Então fizemos um reconhecimento de área e um inventário amostral neles”, conta Emanuelle Pinto, engenheira florestal do Instituto Mamirauá, organização social fomentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).
Em seguida, o PMFC escolheu 24 árvores e passou a monitorar a sua produção, instalando uma tela de 30 metros quadrados abaixo da projeção de suas copas para coletar as sementes que caíam. Assim, foi possível estabelecer um calendário da coleta de sementes, que tendem a uma produção maior entre os meses de abril e junho.
“É importante que se saiba em que época a produção é maior para que se possa extrair em maior quantidade, deixando uma parte para a fauna que se alimenta da andiroba e permitindo a regeneração da floresta”, explica Emanuelle.
Em 2019, o programa lançou a cartilha ‘Boas Práticas para Produção do Óleo de Andiroba’ com orientações acerca da colheita, processamento e comercialização seguindo preceitos de segurança no trabalho e manejo sustentável voltado a comunidades ribeirinhas do interior do Amazonas.
“Para que a extração do óleo e a sua comercialização não causem danos à espécie e ao ambiente, é importante construir um plano de manejo que se baseie em boas práticas de coleta das sementes, considerando a ecologia da espécie, a importância de sua regeneração natural e a dispersão de suas sementes pelos animais. Além disso, a atividade deve significar retorno econômico relevante aos extratores, de forma que suas boas práticas sejam reconhecidas e valorizadas na venda do óleo extraído. ”
Fonte: G1

O que aconteceria se todos os insetos desaparecessem da face da Terra?

borboletas-monarca
A população de borboletas-monarca caiu 86% em 2018 na Califórnia, de acordo com um estudo
Insetos podem ser bem irritantes — com seus zumbidos, picadas ou quando caem na comida. Mas talvez devêssemos pensar duas vezes antes de mirá-los com o mata-moscas, raquetes ou inseticidas. Isso porque as populações de insetos ao redor do mundo estão em rápido declínio.
Os insetos desempenham um papel fundamental na produção de alimentos e na preservação de nosso ecossistema.
“Se tirássemos todos os insetos do mundo, também morreríamos”, explicou Erica McAlister, curadora sênior do Museu de História Natural de Londres, ao programa da Crowd Science, do serviço mundial da BBC.
Os insetos quebram as estruturas biológicas, o que acelera o processo de decomposição. Isso ajuda a reabastecer o solo.
“Imagine se não tivéssemos insetos para nos livrarmos das fezes… Isso seria bastante desagradável. Sem insetos, estaríamos nadando em cocô, cheio de animais mortos”, diz McAlister.
Eles também fornecem alimentos para pássaros, morcegos e pequenos mamíferos.
Um escaravelho (Scarabaeus Satyrus) rasteja sobre uma bola de esterco
Os insetos ajudam a manter o planeta limpo, acelerando a decomposição dos resíduos biológicos
“Cerca de 60% dos vertebrados dependem de insetos para viver, e muitas espécies de pássaros, morcegos, sapos e peixes de água doce também estão desaparecendo”, explica Francisco Sanchez-Bayo, da Universidade de Sydney, na Austrália.
“A reciclagem de nutrientes depende fortemente da atividade de milhões de insetos que vivem no subsolo e em corpos d’água que não sejam os oceanos”, diz ele à BBC.

Trabalho grátis

Além de ser uma valiosa fonte de alimento para outras espécies e servir aos ecossistemas pela reciclagem, os insetos fornecem outro serviço vital: a polinização, que é essencial para a produção de alimentos.
Abelha em flor
Um estudo estimou o benefício da polinização em US$ 350 bilhões anuais
Um estudo recente estimou que nós, humanos, economizamos até US$ 350 bilhões anuais (R$ 1,4 trilhão, em valores atuais) em benefícios do serviço gratuito fornecido por insetos.
“A polinização por insetos é necessária para a maioria das plantas com flores, incluindo cerca de 75% de nossas plantas”, diz Sanchez-Bayo.
No entanto, muitas vezes ignoramos a ajuda que recebemos dos insetos.
“Estima-se que haja 17 polinizadores envolvidos no processo de produzir chocolates [polinizando as plantações de cacau], dos quais cerca de 15 são minúsculos mordedores que todo mundo odeia. Um é uma formiga minúscula e a outra é uma micromariposa. Mas sabemos muito pouco sobre eles”, diz McAlister.
O que sabemos é que, em muitos países, o número de espécies de polinizadores, como as abelhas selvagens, está em declínio.
Um homem tenta capturar gafanhotos em pé no telhado enquanto eles enxameiam a capital iemenita Sanaa
Os insetos podem causar muitos problemas aos seres humanos
Algumas das espécies de borboletas conhecidas, incluindo a borboleta-monarca, que polinizam muitos tipos de flores silvestres, também estão em declínio.
Mas corremos o risco de ignorar o problema até que seja tarde demais?

Grandes números

O mundo dos insetos é muito grande. Segundo a Smithsonian Institution, dos Estados Unidos, o peso global total dos insetos existentes é 17 vezes o peso dos seres humanos.
Um trabalhador escolhe cerejas de café de uma planta de café
Os cientistas dizem que sabemos muito pouco sobre os insetos que são benéficos para nós, como os que polinizam o café
O instituto estima que cerca de 10 quintilhões de insetos estão vivos na Terra (isso significa 10.000.000.000.000.000.000 de insetos).
Especialistas ainda não estão de acordo sobre quantas espécies de insetos existem — as estimativas variam de 2 milhões a 30 milhões.
Mas, diferentemente dos mamíferos, o estudo de longo prazo sobre insetos tem sido muito limitado.
Segundo a Smithsonian, conhecemos apenas cerca de 900 mil tipos diferentes de insetos.
Um corvo preto comendo um inseto
Muitos pássaros e outros animais dependem de insetos para sua alimentação

Extinção em massa

Porém, nem os números surpreendentes nem sua diversidade protegem os insetos da ameaça de extinção em massa.
Parte dos insetos está morrendo antes mesmo de ser descoberta e classificada.
“Temos exemplos capturados nas décadas de 1930 e 1940 que ainda precisam ser identificados. Seus habitats foram destruídos”, diz McAlister.
abelha
Em muitos países, a população de abelhas selvagens está em declínio

Previsões sombrias

Um relatório publicado na revista Biological Conservation, em fevereiro de 2019, mostra um cenário sombrio.
O documento afirma que a biomassa de insetos na Alemanha, Reino Unido e Porto Rico — três países onde o número de insetos tem sido estudado consistentemente nas últimas três décadas — está diminuindo 2,5% ao ano.
“O número populacional de cerca de 41% das espécies em todos os lugares estudados até agora está caindo”, diz Francisco Sanchez-Bayo, coautor do relatório.
“Uma proporção semelhante de espécies não mostra mudança nos números, enquanto uma proporção menor de espécies está aumentando e se tornando mais abundante, talvez para preencher o vácuo deixado por aqueles que estão desaparecendo.”
Alguns vêem os insetos como substitutos da carne, como alguns lugares da China
Alguns vêem os insetos como substitutos para a carne

Diminuição alarmante

Um estudo de 2017 indicou que os insetos voadores haviam diminuído mais de 75% em quase 30 anos em 60 áreas protegidas na Alemanha.
Na ilha de Porto Rico, um acadêmico dos Estados Unidos constatou uma queda drástica de 98% no número de insetos ao longo de um período de quatro décadas.
Nesse ritmo, muitas espécies podem desaparecer.
“Se as tendências atuais não forem corrigidas, veremos o desaparecimento de uma enorme proporção de espécies de insetos (mais que a média atual de 41%) dentro de um século”, diz Sanchez-Bayo.

Habitat

A perda de habitat devido à agricultura intensiva é vista como o principal fator que prejudica os insetos — como as moscas que polinizam os cacaueiros.
“Essas moscas pequenas precisam de árvores para a vida adulta. As larvas dos insetos vivem em folhas em decomposição. Se você faz monocultura, está se livrando de árvores que fornecem sombra — de que os adultos precisam — e você também se livrou do habitat, e as larvas precisam dele”, diz McAlister.
O crescente uso de pesticidas químicos, espécies invasoras e aquecimento global também estão contribuindo para o declínio do número de insetos.
Baratas em laboratório
Declínio no número de predadores naturais pode causar aumento na população de insetos como as baratas

Baratas

A má notícia é que os insetos-praga, como as baratas, provavelmente reverterão essa tendência geral, porque parecem ter desenvolvido resistência a muitos pesticidas.
“Os insetos de criação rápida provavelmente vão prosperar por causa das condições mais quentes, porque muitos de seus inimigos naturais, que se reproduzem mais lentamente, desaparecerão”, disse à BBC o professor Dave Goulson, da Universidade de Sussex.
“É bastante plausível que possamos acabar com pragas de alguns tipos de insetos, mas vamos perder abelhas, moscas-das-flores e borboletas.”

Salvando insetos

Por outro lado, cientistas dizem que ainda temos tempo para tomar medidas corretivas.
“Isso inclui restaurar paisagens plantando árvores, arbustos e canteiros de flores ao redor dos campos, eliminar os pesticidas mais perigosos do mercado e implementar políticas eficazes de redução de emissão de carbono”, diz Sanchez-Bayo.
Ele diz que decisões tomadas por indivíduos, como o consumo de alimentos orgânicos, também podem ajudar a mudar o destino dos insetos do mundo.
“Isso incentivaria os agricultores a reduzir a quantidade de pesticidas usados ​​em suas fazendas e, portanto, ajudaria a reduzir o ônus dessas substâncias tóxicas no meio ambiente.”
Fonte: BBC

domingo, 15 de março de 2020

Por que as zebras têm listras? Os cientistas que tentam responder à antiga pergunta

Em foto tirada desde cima, varias zebras correm em meio a poeira saindo do solo
Da camuflagem a uma ‘marca de identidade própria’, já foram muitas as hipóteses para tentar explicar por que as zebras são listradas
Em fevereiro de 2019, em uma fazenda no Reino Unido, ocorreu um experimento fascinante. Biólogos da Universidade da Califórnia, especializados em evolução, vestiram vários cavalos com casacões listrados como zebras, comparando-os a zebras de verdade.
O objetivo era responder a uma pergunta que há muito tempo intriga leigos e cientistas: por que as zebras têm listras?
“As pessoas falam sobre listras de zebras há mais de cem anos, mas é apenas uma questão de realmente fazer experimentos e refletir sobre a incógnita para entendê-las melhor”, diz Tim Caro, ecologista da Universidade St. Andrews, na Escócia, que estuda as listras das zebras há quase duas décadas.
“As pessoas falam sobre listras de zebras há mais de cem anos, mas é apenas uma questão de realmente fazer experimentos e refletir sobre a incógnita para entendê-las melhor”, diz Tim Caro, ecologista da Universidade St. Andrews, na Escócia, que estuda as listras das zebras há quase duas décadas.
Na fazenda, de propriedade de Terri Hill, uma apaixonada pela conservação de equídeos selvagens, Caro encontrou uma rara oportunidade de observar de perto zebras relativamente mansas. O rebanho dali é formado por animais que vieram de zoológicos de diversos locais no Reino Unido.
Como e por que as zebras evoluíram para exibir listras em preto e branco são perguntas que também testam os cientistas há bastante tempo. É possível listar pelo menos 18 hipóteses para isso, desde a função da camuflagem à de identificação, como acontece com a impressão digital nos humanos.
Mas, também por um longo tempo, essas possibilidades foram apresentadas sem serem submetidas a testes rigorosos.
No pasto, um cavalo com casaco estampado com listras simulando as de zebras
Biólogos colocaram cavalos em casacos com estampa de zebra para observar como as moscas reagiam a eles

Preto com listras brancas?

As zebras, como os cavalos e asnos, fazem parte do gênero Equus.
As três espécies conhecidas de zebras que vagam pelo leste e sul da África, com seus pelos escuros divididos por fios brancos e não pigmentados, são os únicos equídeos listrados. Os padrões e a intensidade das faixas variam de acordo com a espécie e a localização.
Enquanto os cientistas ainda debatem as origens e funções exatas das listras, seus esforços recentes se concentram em três possibilidades principais: elas seriam uma ferramenta contra picadas de insetos; ou teriam função de termorregulação; ou ainda a de proteção contra predadores.
Moscas que picam e sugam sangue são uma ameaça comum aos animais da África. As mutucas e tsé-tsé, entre outras, transmitem também doenças como a do sono, a peste equina africana e a influenza equina, potencialmente fatal.
O pelo fino da zebra não seria uma barreira tão eficaz contra as picadas dos insetos. Mas análises feitas em moscas tsé-tsé, por exemplo, não encontraram vestígios de sangue de zebra.
Muitos estudos já mostraram que as moscas tendem a não pousar em superfícies listradas. Evidências consistentes vieram em 2014 com um estudo de Caro e colegas. Eles combinaram dados sobre clima, presença de leões e tamanho de rebanhos de zebras e relacionaram isso a informações sobre as listras de zebras na área.
Diversas zebras em campo aberto
As moscas são uma ameaça comum aos animais da África, levando à hipótese de que as listras das zebras sejam um mecanismo de defesa contra os insetos
As faixas eram mais pronunciadas em ambientes que favorecem a presença de moscas, de acordo com Caro.
Este ano, a pesquisa realizada pela equipe dele na fazenda de Terri Hill lançou avançou mais um passo. Os biólogos observaram moscas em torno de zebras e cavalos – alguns destes vestindo casacos pretos, outros brancos e listrados.
As moscas pairavam em zebras e cavalos em quantidades semelhantes, mas muito menos moscas pousavam em zebras – ou em cavalos com casacos listrados.
Ao tentar pousar nas listras, as moscas não desaceleravam como fariam chegando a uma superfície não listrada. É como se elas hesitassem e desistissem.
“Parece que elas não reconheciam essa superfície em preto e branco como um bom ponto de aterrissagem”, explica o pesquisador da Universidade St. Andrews.
Caro diz que sua equipe está trabalhando com “muitos dados ainda não publicados” de vídeos de moscas chegando perto de diferentes padrões de superfícies.
E, na Universidade de Princeton, EUA, o biólogo Daniel Rubenstein e seus colaboradores estão abordando a questão por meio da “visão da mosca em realidade virtual”.

Refresco

No entanto, outros pesquisadores que estudam zebras, como Alison Cobb, técnica de laboratório aposentada, e o zoólogo Stephen Cobb, de Oxford, no Reino Unido, não estão convencidos pela explicação da blindagem contra parasitas.
Eles acreditam que as faixas de zebra ajudam principalmente na termorregulação. Enquanto Alison reconhece as descobertas de Caro, ela acha que picadas de insetos “parecem um efeito sem muita importância” para ter impulsionado a evolução das listras de zebra.
“Toda zebra deve evitar o aquecimento. Já as moscas aparecerão em certos lugares e em determinadas épocas do ano, mas não são uma ameaça tão definitiva ou frequente quanto o superaquecimento”, diz Cobb.
A ideia básica dos pesquisadores é a de que as listras pretas absorveriam o calor e aqueceriam as zebras na manhã; já as listras brancas refletem mais a luz e, portanto, poderiam ajudar a refrescar os animais enquanto eles pastam por horas sob o sol escaldante. Essa lógica aparentemente simples é alvo de controvérsia entre cientistas.
Uma zebra em área aberta fotografada de perto
As três espécies conhecidas de zebras que vagam pela África são os únicos equídeos listrados
Caro e sua equipe encontraram apenas uma fraca sobreposição espacial entre padrões de faixas das zebras e temperaturas altas.
Um ano depois, um estudo de modelagem espacial com zebras-das-planícies, liderado por Brenda Larison, da Universidade da Califórnia, encontrou listras mais fortes em áreas mais quentes ou com luz solar mais intensa.
Até agora, as experiências também não trouxeram mais clareza. Um estudo de 2018 descobriu que a água em barris pintados com listras não esfriava mais que a nos barris sem listras.
Mas Rubenstein não está convencido – ele acha que esse experimento teve poucas amostras. Segundo ele, um estudo em andamento conduzido por sua equipe com um número maior de garrafas de água mostra que as faixas ajudam no resfriamento.
Citando informações ainda não publicadas, ele diz que, analisando as temperaturas de diversos animais, descobriu que as zebras são alguns graus mais “frias” que os animais não listrados.
Mas barris e garrafas não conseguem representar todas as partes do mecanismo de resfriamento de uma zebra – o que talvez torne esses estudos muito simples para explicar completamente o objetivo das listras das zebras.
Como cavalos e humanos, as zebras esfriam suando. A evaporação do suor remove muito calor, mas a evaporação deve ocorrer rapidamente, caso contrário o suor fica preso e faz o animal ficar dentro de uma própria sauna. Por isso, os equídeos têm uma proteína chamada laterina que ajuda a espalhar o suor nas pontas dos pelos, aumentando a exposição ao ar e à evaporação.
No Journal of Natural History, os Cobbs relataram em junho que, nas horas mais quentes do dia, as listras pretas das zebras estavam consistentemente 12 a 15 ºC acima das listras brancas.
Eles propõem que a constante diferença de temperatura entre as faixas geraria uma espécie de circulação de ar. Outro mecanismo descrito por eles foi a ereção de pelos pretos, que ajudariam a reter ou liberar o calor e suor.

Camuflagem?

Quanto à última hipótese, a das listras tendo a função de proteção contra predadores, Caro é cético.
Em sua monografia de 2016, ele listou inúmeras evidências contrariando esta hipótese. Por exemplo, as zebras passam a maior parte do tempo em campos abertos, onde suas listras são evidentes; e pouco tempo na floresta, onde elas poderiam servir como camuflagem. Além disso, a tendência delas é de fugir da ameaça, e não de se esconder.
E os leões não têm demonstrado muitas dificuldades em comer zebras.
Rubenstein, no entanto, ainda está testando esta hipótese, segundo ele a “mais difícil” de verificar entre todas.
Ele observa que estudos anteriores apenas testaram se as listras confundem os seres humanos, mas não os leões. Assim, sua equipe está estudando como os leões atacam objetos listrados e não listrados.
Portanto, a dúvida sobre por que as zebras têm listras continua, e a resposta permanece inconclusiva. E não sem riscos – Stephen Cobb foi mordido no braço e internado duas vezes no hospital durante seus experimentos.
Fonte: BBC

Mudanças climáticas: por que os pântanos africanos podem estar aumentando os níveis de metano na atmosfera

Pântanos do Sudão
Equipe de pesquisadores encontrou no Sudão do Sul uma explicação para a subida nos níveis de metano na atmosfera
Finalmente, os cientistas acreditam que podem explicar, ao menos em parte, o aumento recente dos níveis de metano na atmofera.
Um estudo realizado por um grupo de pesquisadores da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, aponta um crescimento relevante nas emissões vindas de regiões pantanosas do Sudão do Sul.
De acordo com dados obtidos por satélite, a região recebeu uma grande quantidade de água vinda dos lagos da África Oriental, incluindo o Vitória, o segundo maior lago de água doce da Terra.
Esse fluxo teria aumentado a propulsão de metano (CH4) dos pântanos, contribuindo significamente para o aumento dos seus níveis na atmosfera.
Estima-se que essa mudança tenha contribuído com um terço do incremento observado entre os anos de 2010 e 2016, considerando toda a África Oriental.
“Não há muito monitoramento de solo nessa região que possa comprovar ou refutar nossos resultados, mas os dados que temos se encaixam perfeitamente”, disse o professor Paul Palmer à BBC News.
“Temos linhas de evidência independentes que mostram que os pântanos de Sudd [grande área pantanosa do país] se expandiram em tamanho e, inclusive, é possível ver em imagens aéreas que ficaram mais verdes.”
gráfico dos níveis de metano

Um aumento progressivo desde 2007

O metano é um gás de efeito estufa potente e, assim como o dióxido de carbono, sua concentração na atmosfera está aumentando.
Não se trata, entretanto, de uma elevação constante. No ínicio nos anos 2000, a quantidade de gás chegou a se estabilizar por um tempo.
Mas logo a sua presença aumentou, por volta do ano de 2007, com um salto adicional observado em 2014.
Agora, os níveis de CH4 sobem rapidamente e seu volume corresponde a cerca de 1.860 partes por bilhão.
Sudd
Região de Sudd: os micróbios em solos saturados produzem metano
Ainda há um debate sobre sua origem. Alguns dizem que as emissões são geradas por atividades humanas como a agricultura, enquanto outros argumentam que são causadas pelo uso de combustíveis fósseis.
Há ainda um forte componente natural na equação e grande parte da pesquisa atual está centrada nas contribuições que vêm dos trópicos.
O grupo de Edimburgo tem utilizado o satélite japonês Ibuki para observar o comportamento dos gases de efeito estufa nas turfeiras e pântanos africanos, e identificaram um aumento significativo nas emissões de metano no Sudão do Sul, entre 2011 e 2014.
campo agrícola
Cientistas asseguram que a subida nos níveis de metano na atmosfera se deve também às emissões geradas por atividades humanas, como a agricultura

Os pântanos do Sudd podem ser os culpados

Supondo que a região chamada de Sudd poderia ser culpada (sabe-se que os micróbios do solo dos pantanais produzem muito metano), a equipe começou a investigar com ajuda de outro conjunto de dados de satélite, tentando encontrar um vínculo.
Depois de monitorar a temperatura da superfície terrestre do lugar, a ideia de que os solos da região haviam ficado mais úmidos ganhou força.
As medições de gravidade na África Oriental mostraram ainda um aumento no peso da água retida no solo. As mudanças nos níveis de lagos e rios também foram acompanhadas com altímetros de satélite.
“Os níveis dos lagos da África Oriental, que alimentam o Nilo e chegam até o Sudd, aumentaram consideravelmente durante o período que estamos estudando. Isso coincidiu com o aumento de metano que vimos e implicaria que o aumento ocorreu devido ao fluxo [de água] do rio para os pântanos”, explicou o pesquisador Mark Lunt.
Mapa do metano
Image captionO instrumento de observação Tropomi detectou uma área com metano sobre o Sudd (em destaque)
O grupo de Edimburgo publicou seus resultados na quarta-feira, na revista Atmospheric Chemistry and Physics, e Lunt apresentará novos dados no encontro da União de Geofísica dos Estados Unidos.
Ele vem observando os dados sobre emissões de metano, coletados pelo satélite Sentinel-SP da União Europeia. Seu instrumento Tropomi pode identificar o CH4 com uma resolução melhor do que o Ibuki. Segundo esse mapeador europeu, está claro que as emissões de metano continuam a subir no Sudão do Sul.
Os níveis de atividade não se parecem em nada com os do início dos anos 2010, mas os pantanais de Sudd continuam sendo uma fonte importante.
“É uma área enorme, então não é surpreendente que esteja liberando muito metano. Para ter uma ideia, o Sudd tem 40 mil quilômetros quadrados: duas vezes o tamanho de Gales. E, sendo tão grande, espera-se que as emissões possam ser vistas do espaço”, disse Lunt à BBC News.
Fonte: BBC