terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

CHINA

A China está pagando pelo descuido ambiental. Cerca de 70% dos rios estão poluídos e 320 milhões de pessoas bebem água contaminada
O Brasil é um país privilegiado num planeta sedento. Tem cerca de 14% de toda a água doce que circula pela superfície da Terra. Mas a distribuição dessa abundância é desigual. Cerca de 80% da água disponível está na Bacia Amazônica, daí a preocupação dos especialistas da ONU com a Bacia do Prata. A maior parte da população – e da atividade econômica – do país está em grandes centros urbanos dessa bacia, onde a oferta de líquido potável é cada vez mais escassa. A maior cidade do país, São Paulo, está perto do limite. O volume de água de rios e represas disponível hoje é praticamente igual à demanda da população. A metrópole, de certa forma, já importa água. As represas da região metropolitana, abastecidas por nascentes como a do Centro Artemísia, só dão conta de metade do consumo da cidade. O resto é bombeado da Bacia dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, cujas águas naturalmente correriam pelo interior do Estado, ao largo da cidade.
De acordo com Dilma Pena, secretária de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo, é preciso buscar novas fontes de água para a cidade. “Caso contrário, em cinco anos faltará água na região”, diz ela. Um dos projetos do gabinete de Dilma é ampliar a estação que vai buscar água explorana região do Alto Rio Tietê, a 36 quilômetros da capital, a última fonte possível para os paulistanos. Se o consumo continuar crescendo no ritmo atual, será preciso buscar mais água até 2025. “Ela deverá ser captada no interior ou até em outros Estados, o que torna tudo mais caro”, diz Dilma.

LÍQUIDO
João Guimarães, da Boticário, em uma nascente de São Paulo. Ele tenta convencer os proprietários a preservar os mananciais.
A disputa pela água no Brasil já vai muito além dos casos conhecidos no Agreste nordestino. O estudo da ONU menciona conflitos pelo uso da água dos rios Paraíba do Sul, Piracicaba, Capivari – na Região Sudeste. “Na Região Sul, as áreas de conflito mais visível resultam da demanda para irrigar campos de arroz e da degradação da qualidade da água, especialmente nas áreas de criação intensiva de gado”, diz o relatório. A disputa afeta cidades como Santo Antônio da Patrulha, Gravataí, Alvorada e Cachoeirinha, na região metropolitana de Porto Alegre. A área, que reúne 650 mil habitantes, é abastecida pelo Rio Jacuí. No verão, a estiagem faz a vazão do rio cair 40%. Plantadores de arroz, situados acima dos pontos de captação de água para as cidades, aumentam o bombeamento para irrigar suas lavouras. O resultado é que as cidades ficam sem água. “Nos anos mais críticos, o Ministério Público precisa intervir para garantir a prioridade da população”, afirma o diretor do Departamento Municipal de Água e Esgoto, Flavio Presser.
Os países debatem hoje a melhor forma de gerenciar a água, um recurso cada vez mais escasso. A tendência mundial é recorrer à iniciativa privada. Em 1980, o mundo tinha 12 milhões de domicílios atendidos por concessionárias privadas. Hoje, são 600 milhões. A Inglaterra, a França e o Chile foram pioneiros. Quase todo o negócio mundial de gestão de água está nas mãos de duas empresas francesas. A maior delas, a Veolia, faturou US$ 13 bilhões no ano passado. A segunda, a Suez, ganhou US$ 7,5 bilhões em negócios com água. O setor apresenta grandes oportunidades. O banco de investimentos JP Morgan calcula que as concessões municipais de água geraram US$ 465 bilhões em 2006. Até 2015, segundo o JP Morgan, o negócio deverá envolver US$ 1,2 trilhão.
Os defensores da privatização afirmam que só ela é capaz de gerar recursos para a exploração e gestão da água. Trata-se de um fator essencial no caso de países como o Brasil, onde o desafio ainda é garantir água tratada para todos. Hoje, 10,7% dos domicílios do país não têm água encanada e 23,3% não contam com rede de esgotos. O Ministério das Cidades estima que seria preciso investir R$ 178 bilhões para que os brasileiros tenham água e esgoto até 2020. O modelo de privatização ainda precisa de ajustes. Há seis anos, o governo do Amazonas licenciou para a Suez o abastecimento de Manaus. O serviço ainda está longe do ideal. Cerca de 15% da população não recebe água em casa e 230 mil pessoas recebem água menos de 12 horas por dia. Mais de 90% da população não tem tratamento de esgoto. E a tarifa é considerada elevada.
Privatizando ou não o serviço de fornecimento, a escassez crescente tornará inevitável estabelecer um preço para a água que vem dos cursos naturais, como rios e lagos. No Brasil, há iniciativas como o Comitê de Bacias do Rio Paraíba do Sul, uma região que concentra indústrias entre o Rio de Janeiro e São Paulo. Há quatro anos, as empresas instaladas na região pagam para tirar água do rio e para devolvê-la à rede de esgoto. Quanto mais poluída estiver a água, maior o preço. Isso incentivou a implantação de métodos mais eficientes para usar o recurso, diminuindo o consumo e aumentando o índice de reutilização de água. “O objetivo de cobrar pela captação, pelo consumo e pelo lançamento da água não é arrecadar fundos para resolver o saneamento, mas criar uma cultura em relação a esse tema”, diz a secretária-executiva do Comitê da Bacia do Rio Paraíba do Sul, Maria Aparecida Vargas.
Cuidar da gestão da água é essencial para garantir os recursos necessários ao crescimento econômico. Basta analisar a experiência da China. O país, que resgatou milhões de pessoas da miséria nos últimos anos, agora enfrenta os limites de seus recursos hídricos. Para sustentar a superpopulação de 1,3 bilhão de habitantes e o consumo crescente das indústrias, a China usa água de forma insustentável – e paga o preço. Os lençóis subterrâneos da capital, Pequim, diminuem 2 metros por ano. Um terço dos poços da região metropolitana já secou. A agricultura também está comprometida. Na região que se estende do norte de Xangai ao norte de Pequim, responsável pela produção de 40% dos grãos chineses, o lençol freático cai a uma taxa média de 1,5 metro por ano. Os fazendeiros do norte enfrentam perdas tanto pela exaustão dos aqüíferos quanto pelo desvio da água para cidades e indústrias. A demanda levou a China a construir canais para transpor as águas do Rio Yang-Tsé para o Rio Amarelo. A obra, de US$ 60 bilhões, é considerada uma das maiores do mundo.
Por que precisamos economizar água


Fonte: FAO








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